Citação do dia

"... tudo começa pelo direito do outro e por sua obrigação infinita a este respeito. O humano está acima das forças humanas."
Emanuel Lévinas

domingo, 29 de novembro de 2009

Fernando Pessoa - Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-mne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado;
mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...Sim, o porvir...
Álvaro de Campos

Pedro, Meu Filho...

Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente apaixonado.E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.Da mesma forma que eu, muitas noite, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo.E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte.E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder.E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho...

Vinícius de Moraes

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

AMOR E TEMPO

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera ! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor ?! O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar menos.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Com a palavra: O Psicanalista


Todo mundo, que não apenas fez suposições sobre Freud, sobre sua vida, suas construções dentro da psicanálise, mas que de fato, entrou nesse universo tão precioso que é a psicanálise, e de tudo que um homem como Freud, numa época tão complicada, onde se queimava livros em praças públicas, ainda sim, ele conseguiu contribuir para que os desejos, desejos de todos nós, de alguma forma, fossem acolhidos, reunidos em vários discursos, e que até hoje , mesmo com tantas ameaças de morte, estão sobrevivendo, e acima de tudo, com grandes produções, pesquisas. E além de tudo, Freud tinha um apreço pela arte, e em suas obras, em algum momento a gente se depara com esse gosto que ele tinha pelo universo da arte, sobretudo da literatura e escultura.
"Não sou um conhecedor de arte, mas simplesmente um leigo (...). Sou incapaz de apreciar corretamente muitos dos métodos uti­lizados e dos efeitos obtidos em arte (...). Não obstante, as obras de arte exercem sobre mim um poderoso efeito, especialmente a literatu­ra e a escultura e, com menos freqüência, a pintura. Isto já me levou a passar longo tempo contemplando-as, tentando apreendê-las à mi­nha maneira, isto é, explicar a mim mesmo a que se deve seu efeito. Onde não consigo fazer isso, como, por exemplo, com a música, sou quase incapaz de obter qualquer prazer." Sigmund Freud
Abaixo postei um texto do amigo e artista Nonato Coelho, pela sensibilidade e amor a arte. Recentemente participou de um tour cultural que passou pela Holanda (com uma participação na feira de arte Europartexpo-2009, em Radio Kootwaijk), e culminou num encontro com a victoria de Samotraccia no Museu do Louvre, e agora está de volta...

Com a palavra: O Artista

A pintura é um fenômeno sociológico, surgiu antes da escrita, nasceu nas cavernas nos templos spiligraficos. Lá pelas bandas de lascaux ou Altamira, temos exemplos imorredouros dos artistas pré históricos que nos legou imagens com movimentos e composições que a era do computador não supera. Em tempos de multimídias a pintura diluiu seus signos e símbolos no cotidiano da arte atual, e entre o vídeo, a fotografia, o Xerox, o laser etc. ela continua viva e a provocar sentimentos de emoções. Alguns céticos reacionários até insistem em proclamar a morte da pintura, mas no mundo da arte contemporâneo ela continua viva atuante e figurativa como nunca..., se um dia voltar-mos pra caverna ela voltará conosco sempre renovada e instigante; vai ser sempre uma testemunha das peripécias da vida.

Eu pinto pra melhor sentir o mistério da vida, e tentar sentir a transcendências das coisas tangíveis. Acho que arte e mercado não tem que necessariamente ser sinônimos, e ai é tema para uma outra tese...
O que me atrai na pintura é seu valor construtivo, razão e emoção, o seu senso pragmático sem perder sua essência onírica. Arte e ciência em meu entender são casados e tem valores espirituais metafísicos.

Nonatto Coelho

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Afetos encapsulados

Esses dias, ouvi falar da peça: Máquina de abraçar, cuja narrativa percorre o universo autista, ainda tão incompreendido, tão difícil de penetrar, um dialeto tão confuso, um olhar distante, desprendido. O não - desejo de ser tocado, ser olhado, é um pouco o que o autista mostra de si.

Há dias venho pensando em colocar algum texto no blog sobre pessoas que sentem muita dificuldade em falar de si, de demonstrar qualquer tipo de afeto, seja ele qual for, ou mesmo desafetos. Sabe quando você cumprimenta uma pessoa com um aperto de mão e sente uma superficialidade no toque, não há uma firmeza no gesto, não há correspondência afetiva, é uma mão que não suporta o toque. Isso se estendendo ao olhar, porque além das mãos, do toque, o olhar inicia um discurso, ele te dá dicas de: para que olho eu estou olhando, que olhar é esse? Isso quando a pessoa permite esse contato. E assim o nosso corpo todo vai falando, vai ficando nu, mesmo com tantas barreiras, tantas defesas.

Essa leitura simbólica: facial, dos gestos, da sonoridade de cada pessoa, daquelas que conversam tão baixinho, para que não possam ser ouvidas, ou das que já querem ser ouvidas de qualquer jeito, tudo isso enriquece muito toda essa travessia nossa por essa vida. Estar atento ao nosso corpo, a nossa voz, aos nossos desejos, enfim, é um grande exercício e precioso também, mas que às vezes a gente faz “pouco caso”, não dá ouvido, àquilo que tanto quer falar. E fala, mesmo sem a gente perceber, e tem sempre alguém que vai olhar e vai ver.

Existe também uma dificuldade em receber um elogio, tem sempre um: “Que nada, são seus olhos”. Sim, são os seus olhos mesmo, mas são os meus é que não estão querendo ver. Pessoas que passaram por constrangimentos afetivos importantes, sentem muita dificuldade em corresponder a uma simples intenção de carinho, e sofrem muitas vezes com isso. E isso não tem nada a ver com ser muito falante e risonho não, tem pessoas mais quietas, que são extremamente generosas, que te olham de uma forma muito boa, que te conquistam pelo aperto de mão, por uma palavra que chega numa hora especial.

Essas pessoas que conseguiram entrar na esfera afetiva sem tantos conflitos, lidam melhor consigo, com o mundo e com o outro. Claro, nós estamos o tempo todo expostos, sujeitos a sentir medo, vontade de chorar, de ter alguém por perto, de se isolar, de não falar, ou querer falar demais, e é muito bom a gente deixar que os afetos brotem, que a gente possa revelá-los, mesmo que a foto não pareça tão boa assim, mas o ato de revelar, a si, já é uma grande descoberta.

Iza Junqueira

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Museu do Carmo e Museu do Divino em Pirenópolis-GO


Foi assinado nessa quarta-feira, 7 de outubro, na cidade histórica de Pirenópolis, convênio entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Ministério da Cultura (Iphan/MinC) e o Ministério do Turismo para a revitalização da orla do Rio das Almas. Na ocasião, também foram inaugurados os museus de Arte Sacra da Igreja do Carmo e o Museu do Divino, localizado na antiga Casa de Câmara e Cadeia.








Conheçam o Museu de Artes Sacras e do Museu do Divino. O primeiro funcionará na Igreja do Carmo e o segundo na antiga Casa de Câmara e Cadeia. O evento contou com a presença do prefeito de Pirenópólis, Nivaldo Melo, do presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida, do presidente do Instituto Brasileiro de Museus, José do Nascimento Júnior, entre outras autoridades.
Sob a direção do Museu do Carmo, estão os preciosos cuidados de Francisco Figueiredo de Moraes, uma pessoa dedicada a história, e tenho certeza que Pirenópolis tem muito a ganhar com esse caro amigo, e um profissional que só tem a contribuir para que o Patrimônio seja realmente valorizado. Recentemente lançou um livro: O espaço do culto - à Imagem da Igreja.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Hai-kai do amor


O amor é bom em si.
Não importa o tempo
a Tempestade, o findar
.

domingo, 13 de setembro de 2009

Um belo Filme - Há muito tempo que eu te amo

Também roteirista, o diretor estreante Philippe Claudel conquistou o prêmio do júri do Festival de Berlim de 2008 com um drama sensível, no qual os momentos de silêncio são mais importantes do que os diálogos. Em bom francês, a atriz inglesa Kristin Scott Thomas (de O Paciente Inglês) vive Juliette, uma pessoa reservada que retorna à cidade natal, na França, depois de viver quinze anos na Inglaterra. Ela é acolhida pela doce irmã caçula Lea (Elsa Zylberstein), uma mulher casada e com duas filhas adotivas. O desconforto entre as duas fica evidente desde o primeiro contato, mas aos poucos são revelados os motivos da ausência prolongada de Juliette. Excelente trabalho das duas atrizes, que rendem muito a partir de olhares e pequenos gestos (117min). 14 anos.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

las simples cosas

Esse final de semana estive em Pirenópolis, rever queridos amigos, e de noite fomos ao Caffe Tarsia, um lugar muito agradável e bonito, e ouvi Mercedes Sosa , na voz de Indiana Nomma. Fazia tempo que não ouvia uma voz tão bela. E algumas pessoas foram chegando e essa cantora preencheu sonoramente aquele ambiente, aquelas pessoas ali...Reencontrei alguns antigos professores, alguns colegas que fizeram formação em psicanálise, algumas pessoas que conheci ali, bem interessantes, e foi um desses momentos, em que, o que mais se tem a fazer, é ficar grata...
Pirenópolis é um perigo para mim, todas as vezes que vou é sempre muito bom, mas a hora que volto é sempre muito difícil...
E nessa viagem, das muitas que fiz e das que farei, lembrei muito de uma música de um "profeta-poeta" que se chama Tejada Gómez


Canción de las simples cosas

Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas,
lo mismo que un árbol que en tiempo de otoño se queda sin hojas.
Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas,
esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.
Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amó la vida,
y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas.
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,que el amor es simple,
y a las cosas simples las devora el tiempo.
Demórate aquí, en la luz mayor de este mediodía,
donde encontrarás con el pan al sol la mesa tendida.
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
que el amor es simple,
y a las cosas simples
las devora el tiempo.

Tejada Gómez na voz de Mercedes Sosa


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Desiderium Desideravi (ou, o desejo de desejar-te)

As estradas que, por
ti, deixei, em não
andá-las, estão
percorridas,
os dias que não vivi,
por ti, em fragá-los,
estão dourados.

Benditas sejam as distâncias.
Delas, a escorrer, o caminho
propaga o levante do sol
escavado(s) em suas pontas
de (esfinge)...


(In p.42, DESIDERIUM DESIDERAVI. Poa.

Movimento, Maria Carpi)

domingo, 30 de agosto de 2009

Quantas vezes eu assassinei o amor?

O amor nunca morre de morte natural. Anaïs Nïn estava certa. Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença. Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos. Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento. O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida. O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever. O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.
- Fabrício Carpinejar

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Citação do dia



“Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores (e senhoras), ou consultem os poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e mais coerentes”.
Freud, S (1933)2

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Zoológico dos Horrores

Você conhece o zoológico de Goiânia? Não? Nem vai conhecer.
Eu fui a esse zoológico pela primeira vez nos anos 70, e nunca achei muita graça de ver aqueles animais ali, todos presos, apertados. Bonitinho para família ir com seus filhos aos finais de semana, enchendo o saco do macaco, rindo de todos aqueles animais, confinados, sem poder viver em liberdade.
Não sou nenhuma ambientalista não, viu gente, nao levanto bandeira greenpeace, nada disso, mas o que eu puder fazer para que o espaço onde vivo, que não é só meu, seja cuidado, farei. Esse ano, 62 bichos “morreram” no zoológico de Goiânia, Ontem, mais uma girafa, se foi. Estão morrendo, de que? Quais as causas dessas mortes?

Um dia, levei minha afilhada de quatro anos, para passear nesse zoológico, a pedido dela, e o passeio foi deprimente. Ela começou a chorar em frente à jaula dos ursos, completamente autistas, alheios, andando de um lugar a outro, e ela disse: " Quero ir embora daqui, é muito triste". É sim, Elisa, é muito triste.
Esse zoológico está situado, no que se convencionou chamar, área nobre de Goiânia. Não tão nobre assim, não é? E pretende-se mudar o zoológico de lugar, só se esquecem, que dentro dele tem habitantes, aliás, tinham habitantes. Algumas reformas estão sendo feitas ao redor da extensa área do “zoológico”, para valorizar a nobreza de seus moradores, nos seus luxuosos “APS”, e suas sacadas, com vista, por enquanto, para a carnificina.

Bom, a vista ainda é de terror, um cemitério a céu aberto, bichos morrendo quase todos os dias, e as reformas prometidas, refletem a extinção dos indefesos moradores do zoo. Quem é o bicho, na verdade?

É bom pensar...




Iza junqueira

domingo, 23 de agosto de 2009

Vamos Florescer ...

( Gente, isso aqui é lindo demais...)
O florescer

Floresce, pétala a pétala
um céu que se abre

Finalmente a última pétala
estremece - a derradeira

Até o vento, até o sol baixam a respiração
Eu também fecho os olhos lentamente

Yi-Ho-u (1912-1970)

sábado, 22 de agosto de 2009

Poesia coreana

Espelho

Não há som dentro do espelho
Não deve haver nenhum outro mundo tão silencioso assim.
Dentro do espelho também tenho orelhas
Duas pobres orelhas que não entendem o que eu digo.
O eu dentro do espelho é canhoto
Um canhoto que não responde ao meu aperto de mão, nao conhece o aperto de mãos
Eu não consigo tocar o eu do espelho por causa do espelho. Mas se não fosse pelo espelho como eu teria ao menos conhecido o eu do espelho?
Eu no momento não tenho espelho
mas dentro do espelho há sempre o eu do espelho
Não sei muito bem mas deve estar absorto em algum trabalho canhoto
O eu do espelho é bem o oposto de mim
mas também separece comigo
Ressinto- me mesmo de não poder me preocuparem examinar o eu do espelho
Yi Sang

Obrigada, Fátima Milnitzky, por essa descoberta...

um poeta inquietante!

Yi Sang (14 de setembro, 1910 - 17 de abril, 1937) é considerado um dos escritores mais inovadores da moderna literatura coreana. Crossing and blurring the boundaries between poetry, fiction and essay, his experiments in literary form and language, as well the psychological complexity of his inquiry into passion, eroticism and the indeterminate nature of self were unprecedented in Korean literary practices of his time. Passagem e esbatendo as fronteiras entre poesia, ficção e ensaio, suas experiências em forma literária e língua, bem como a complexidade psicológica da sua investigação sobre a paixão, o erotismo ea natureza indeterminada do self foram sem precedentes em coreano práticas literárias do seu tempo.

Amor à segunda vista.

O Abraço ( tela de Matisse)
Qualquer coisa que se faça, que se ame, que se deseja, infere algum tipo de ideal. Os nossos inventimentos, desde o mais simples, até os mais complexos, estão imbuídos de algum nível de idealização. Esses transbordamentos de paixão, que experimentamos quando nos encantamos por alguém, à primeira vista, servem de emblema para que possamos pensar nossas construções afetivas.

Nós, que já vivemos uma bela história de amor, sabemos que: Só é amor se for à segunda vista, terceira, quarta e por aí vai. Não que, à primeira vista, no primeiro olhar, não exista o desejo de amar, mas por mais desejo que se sinta, o que está sendo posto, nesse primeiro foco, em relação ao outro, são as nossas idealizações primeiras, resquícios dos nosso primeiros olhares amorosos. À primeira vista, os diálogos são bem conhecidos: " Você tem tudo a ver comigo"
"Agora encontrei o amor da minha vida"
"Não consigo viver sem você"

Pode ser tudo isso? acredito que sim, mas não à primeira vista.
Há de se percorrer um caminho com essa pessoa, querida, desejada, amada, até que se consiga, aos poucos, ir tirando as roupas do manequim que nós mesmo montamos, conforme aquilo que idealizamos. Resta saber, quem é o outro, quem desejamos amar, quais são os desejos dessa pessoa, além dos meus. Bingo! Se nós abrirmos mão de tantas idealizações, durante essa história amorosa, teremos mais chance de continuarmos com o nosso suposto-amor, como costumo dizer.
Acontece , que há pessoas, que nao conseguem sair desse lugar ideal. Não há o desejo de conquista, e sim, de posse, de "ter" o outro, à sua maneira. A posse está sempre mais próxima da perda, já a conquista, possibilita um encontro mais feliz. Na conquista, até a distância nos aproxima. O desejo está nos olhos, não há outra via de se chegar a não ser olho no olho, pele, toque, voz, cotidiano, ouvir. E não é um qualquer ouvir.
É preciso ouvir o som do azul. ( ouvi essa frase hoje, achei linda)
Salve!
Iza Junqueira

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

It's a question?

Eu costumo dizer sempre, que ao se julgar alguém, algo bem nosso e indizível para nós, está sendo exposto. As palavras tem uma força bombástica, sobre quem as pronuncia, e que recai sobre quem as ouve, algumas vezes, como filtro sonoro, capaz de relevar o mal-dito, e outras, atingidas tal como uma bomba explodindo por dentro. Então, falar é agir, tudo tem uma intencionalidade, uma atitude boa ou perversa que está minando pelos poros e esperando a hora certa e a presa certa. Palavra é também atitude, e como. Atitude em si não basta, nao se sustenta, mesmo porque se atua muito, se engana muito.

Sim, dizer do outro, é dizer de si, isso não se contesta, ao menos que se tenha pouca sensibilidade e interesse em entender e aceitar isso. O delírio que algumas pessoas entram , principalmente quando se estabelece relações virtuais, é algo assustador. Os mal-entendidos das tecladas "msn", e a deficiência de interpretação que esses diálogos ressoam para o sujeito, principalmente quando, não se sabe quem está do outro lado, é um resultado psicotizante, alienante, caótico. Se tem uma idéia, uma imagem projetada por nós, nada mais que isso. O que sobra em demasia desses encontros, quando só se sustentam virtualmente, são fantasias, muitas vezes pobres e perversas.

Esses dias, uma pessoa disse: "Eu me viro muito bem sem isso aí "( "isso aí", era a psicanálise, ou qualquer processo que a envolvesse). E percebi a dificuldade expressiva dela em dizer: "Como é mesmo isso aí que você é? P SII CA NA LISTA??". Eu disse: "isso, conseguiu falar!!!Nossa, mas que ótimo que você consegue resolver tuas coisas sozinha, de uma outra forma". Claro, eu não disse num tom de concordância, mesmo porque ressoou forte demais, e com uma resistência, na fala dela, que não pude deixar de pescar. E as vezes o peixe é grande demais para o tamanho do aquário, mas ele continua achando que esse é o melhor lugar pra ficar, apertadinho mesmo, então deixemos ele quietinho por lá.

Tem coisas que as pessoas ouvem que podem ser absorvidas e mal ingeridas, e tem outras que a gente transforma em palavras, arte, poesia, amor. E é sempre bom ter alguns satélites em volta de nós, para nos emitir alguns sinais, e que bom que algumas pessoas conseguem ouvir e falar, sem julgar. Lembrando que ao julgar o outro eu estou falando daquilo que não suporto admitir em mim.

Goodluck.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

AMORTE

Foto romeo and juliet - by: Annie leibovitz

Depois de ler o texto de Roberto Mello, e vendo essa bela foto tirada pela Annie Leibovitz, eu fiquei pensando se resistir ao amor, não é ao mesmo tempo, uma fuga da morte, não somente da morte física, mas também de todos os nossos afetos e desafetos, dos amores desaparecidos e que nunca mais voltarão. Lembrei de uma música do Lulu Santos que diz assim: “Quando um certo alguém, desperta um sentimento, é melhor não resistir, e se entregar”. E resistir ao amor é causa de angústia, perder o encantamento pelas coisas mais simples da vida, como olhar um céu bem estrelado, trabalhar o dia todo com tesão, e chegar em casa da mesma forma e ver quem você ama, abrir a porta pra você, e te puxar para dentro. As pessoas perdem tempo demais se defendendo das suas fragilidades, como se a cura para a dor do amor, fosse endurecer, fechar a porta pro novo entrar. E no texto que se segue, o psicanalista Roberto Mello, cita um neologismo: AMORTE, constituído de amor e morte - não há um sem o outro.
Então o que nos resta diante dessa legitimidade? Bem, seria interessante que cada um pudesse pensar sobre isso...Fica o meu convite...

A MORTE
Por Roberto Mello
- A morte não há - disse um psicanalista, há tempos, no Rio de Janeiro, para uma platéia atônita durante um congresso. Efeito imediato: uma velhinha desmaiou. Foram ver, acudiram, e era uma psicanalista. Burburinho. Quem seria? Qual o nome? Idade? Um copo d'água. Levaram a pobre da velhinha para fora da sala, deitaram-na num sofá. Não, não era um divã. Abanaram, abanaram, trataram com carinho, e ela aos poucos se recuperou. Poder da palavra. Fiquei pensando, não era para subestimar. Poderia ser comigo, com qualquer um. Os gregos antigos sabiam que a palavra cura e mata. Os romanos sabiam que nas assembléias públicas, onde o discurso corria solto, havia sempre aqueles que tinham ataques de epilepsia, até por isso chamada de mal comicial. César era um deles.

Que se diga fica atrás do que se diz naquilo que se ouve, afirmava Lacan, no seu texto O aturdito, o dito que nos deixa aturdidos, a exigir dos analistas o talento da decifração. Posso dizer que você é uma mulher, mas isso não quer dizer que você verdadeiramente o seja. Perder-se no dilema do ser ou não ser é deixar de viver. Trocando o ser pelo haver, desde Freud, os psicanalistas sabem que a morte não há. Quer dizer: ninguém faz a experiência da própria morte. Não há uma entidade, A morte. Enigma. Para nós, a morte é sempre dos outros. O que não impede que num belo dia desapareçamos. Perecimento. Estive aqui, e não estou mais. Sumirei, mas não de todo. Há sempre algum resto. Nem que seja por matéria de fé. Lacan também dizia que a morte era uma pura questão de fé, e que, se não fosse assim, se não acreditássemos que um dia vamos morrer, o peso da existência arrastando-se pela eternidade seria absolutamente insuportável. Ninguém agüentaria um gozo eterno. Mas há os que crêem acreditar nisso, e morrem em vida, como os obsessivos, que não sabem se estão vivos ou mortos, se amam ou odeiam, paralisados pela dúvida improdutiva, alienados na espera, a espera da morte, geralmente de uma figura de autoridade, pai, patrão, mestre, para que então se sintam autorizados a viver. Na clínica, é dos obsessivos o questionamento radical da tragicidade da existência. Hamlet adia o crime por amor e nem sabe se ama. Romeu e Julieta, por amor, antecipam a morte. Sexo e morte estão interligados, nos diz a psicanálise. Dois adolescentes se encontram e se convidam para o coito: vamos brincar de morrer? Daí a legitimidade do neologismo amorte. Em 1998, em Salvador, na Bahia, psicanalistas trataram desse par ordenado, constituído de amor e morte - não há um sem o outro - num famoso congresso.

Em outro congresso, no Rio, discutiu-se sobre a possibilidade de a morte ser uma variedade de sexo. Por mais chocante, escandalosa que seja a aproximação, constatou-se que há um gozo em falar da morte. Se falar de amor é já fazer amor, como dizia Lacan, falar da morte deixa escapar um gozo inesperado, insuspeitado, mas que pode ser captado pela observação de uma crise maníaca que às vezes toma conta dos velórios. A literatura brasileira é rica de exemplos, entre eles algumas narrativas de Jorge Amado. É também da Bahia boa terra que nos vem uma estranha estatística de alta incidência de casos de linchamento, em que grupos se reúnem para fazer justiça com as próprias mãos, rompendo o pacto civilizatório - não matarás - e deixando-se fotografar com um semblante de gozo evidente. A conclusão óbvia é a de que existe um gozo de matar. Somos uns boçais, dizia Caetano numa canção que fustigou os podres poderes que não respeitam nem sinal de trânsito.Aliás, não nos damos conta de que a história de Édipo começou com um acidente de trânsito: Laio, pai de Édipo, fugia de um outro pai, que o perseguia porque não lhe dera autorização para que transasse com seu filho. Laio desrespeitou a lei que regulava a pederastia, velho costume grego. Na pressa, ao passar por uma encruzilhada, seu carro bateu no de Édipo. Discutiram, e Édipo, sem saber quem era seu desafeto, o matou. Fugindo do pai de um menino, Laio morreu nas mãos de seu menino, diz uma das muitas versões do mito tebano, mas nem por isso tomamos cuidado com as discussões no trânsito. Repetição sem fim?

Tesão de matar, tesão de morrer, amorte de mil faces se perpetua ao longo das eras. Sabedora disso, a Igreja católica, com sua sabedoria, instituiu a cerimônia da missa, em que, simbolicamente, o corpo e o sangue de Cristo são devorados. Aplaca-se, assim, uma fome insaciável. Por que se chocar com o mito freudiano do parricídio, o assassinato do pai primordial, do pai da horda, que monopolizava toda forma de gozo, todas as mulheres, crime que está na origem da lei e da civilização? De pai morto a pai simbólico, fundamento civilizatório. Civilização a exigir um novo pacto, um acordo para diminuir o ritmo da destruição da vida, pelo menos para diminuir o ritmo da morte da biodiversidade. Morte gulosa, voracíssima, que nos rouba a água potável, o ar limpo, a chuva criadeira, a terra generosa, e nos torna inimigos do fogo: cientistas apavorados nos advertem para as mudanças climáticas e o aumento crescente da temperatura. Aliança entre ecologia e religião, como propõem alguns cientistas. Será que desta vez vamos? Teocracia à vista. Estaremos advertidos pelo ceticismo do crítico literário Harold Bloom, que, no seu livro Jesus e Javé - Os nomes divinos, não consegue compreender, na sua condição de judeu, o fascínio de um Deus que comete suicídio? O fantasma da morte é imprescindível?

A velhinha que desmaiou - perdeu os sentidos - padeceu de uma frase que abalou seu sistema de crença: suas significações habituais entraram momentaneamente em suspensão, abriu-se uma ausência de sentido. Podemos especular se ela teria sido formada na escola que despreza a pulsão de morte anunciada por Freud em 1920, como uma resposta teórica - e prática - para os insucessos da clínica: por que os sujeitos querem e não querem tratar-se, ao mesmo tempo? O que faz com que subestimem o papel da palavra, recusando a saída possível pela simbolização, dado que o homem não pode não simbolizar? Os budistas nos falam da dor de existir. Que gozo é esse? Remédios são paliativos, ainda que bem-vindos.

Ainda que pretenda eximir-se da responsabilidade do seu sofrimento, o sujeito contemporâneo pode continuar a não simbolizar a morte, delegando a um outro, ao remédio, as decisões cruciais de sua vida? Haveria uma ética para a subjetivação da morte?

Os analistas estariam à altura dessa ética? Não sei de muitos exemplos. Me lembro de um. O ano de 2005 me foi particularmente cruel: desapareceram minha mãe e meu analista. Horus Vital Brazil, que esteve conosco em Goiânia, para algumas jornadas de trabalho, mostrou, pouco antes de morrer, uma serenidade comparável a de Sócrates. Viveu com alegria seus últimos momentos, escrevendo, dando cursos, consolando amigos, parentes, analisantes, aceitando com resignação - porque bem vivera e bem dissera a vida - o seu fim.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O pulso ainda pulsa,,,

Vou postar algo que Joselita Rodovalho escreveu.
Joselita é psicanalista, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Brasília. Uma pessoa que gosto muito, nos ajudou muito aqui em Goiânia, com os nossos encontros, publicou recentemento o livro: O Atual Sempre - Um ensaio psicanalítico sobre o inabitável vazio da vida cotidiana.

"Felizmente o desejo humano existe única e exclusivamente para ser insatisfeito, senão a vida não pulsa. É deste pulsar que o sujeito da arte vem com suas ferramentas amenizar os apelos de um desejo insatisfeito, isto vale tanto para o sujeito que fabrica a trama de seus desejos pela arte, quanto para os sujeitos que consomem, cada qual a seu modo, esse produto. Portanto, o veio pulsional deve ser permanentemente restituído através dos veículos da linguagem, falada, escrita, representada etc. para que o sujeito possa dizer e redizer seu desejo insatisfeito. É disso que emana o poder de nossas enunciações privadas e obstruídas, mas o que ocorre no subsolo do desejo são as potentes cordilheiras incessantes da pulsão. Para onde dirigi-las e derramá-las, é uma questão de liberdade de escolha do sujeito". Joselita Rodovalho

Vargas Llosa quem diz:
"os homens não estão contentes com o seu destino, e quase todos - ricos ou pobres, geniais ou medíocres, célebres ou obscuros - gostariam de ter uma vida diferente da que vivem. Para aplacar - trapaceiramente - esse apetite surgiu a ficção. Ela é escrita e lida para que os seres humanos tenham as vidas que não se resignam a não ter. No embrião de todo romance ferve um inconformismo, pulsa um desejo insatisfeito."

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Um sonho que nunca morreu...


O sonho encheu a noite
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre.
Adélia Prado
Foto da Cidade de Goias - que amo tanto

SOBRE O TEMPO

Um belo texto...
RUBIA DELORENZO (1)

Vai chegar uma nova criança. Tudo gira, em vertigem.Desarruma-se algo. Perde-se o equilíbrio do hábito. A filha agora é mãe, a mãe é também avó, a caçula vira tia.Avós de sangue exultam. Cuidado! É preciso viver da fraternidade, o laço solidário capaz de abrir a roda para que caibam todos. E estabelecer o sentido estendido da partilha: celebrar com outros os frutos do tempo e a estação da vida e respeitar o que é legítimo da justa divisão nas diferenças.Esse é o primeiro tempo da novidade. Depois, é preciso admitir: temos muito trabalho com as sombras, com o que se deu no invisível.Haverá alegria para a filha mulher em seu novo estado de mãe? Guardará ela, com prazer, na memória de seu corpo o fluxo perene dessa ligação? De mãe para filha, perduraram as alianças urdidas nas trocas femininas? Na feitura da colcha de retalhos, com suas dobras tão simétricas e junções irregulares, com seus centros coloridos e com bordas mais tristonhas, os detalhes extravagantes, as dessemelhanças, como conviveram? O gosto jovem e o mais antigo, a sábia lição dos mais velhos e a vontade de inventar? Como tratar o relicário?Mundo novo admirável, estarei dentro, estarei fora? De repente o tempo dilatou-se. De novo, vi a vitalidade do século, a força combativa das gerações, a pulsação apaixonada, a família, a vida, o amor, em desordem. A idéia do tempo em sua dimensão desdobrada se impôs: tempo pródigo, doador, no avesso do tempo odiado, ladrão inclemente, usurpador. Na dádiva inesperada do tempo pressinto esse retorno ao íntimo, ao mais secreto: a queda no túnel de Alice, o tremor, estar caótica, pulsante, desordenada. Paul Klee, certa vez, diante da superfície branca da tela, inibido, ele próprio atingido pelo branco, confessa:"No entanto, permaneço calmo, porque me foi permitido, inicialmente, ser eu mesmo um caos. Essa é a mão materna"(2).A que foi mãe e que foi "trêmula e tímida" pode provar num movimento destemido, a presença do caos agora renovado pela aventura que é, novamente, o estranhamento da filha e o desamparo da criança.Persiste, nesta doação do tempo, a impressão de que se existe calma que apazigua o caos, é porque há algo que permanece.
Abril - 2009

(1) Rubia Maria Tavares Delorenzo é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.(2) Citação feita por J.-B. Pontalis, em Perder de Vista, no último artigo, que dá título ao livro.

Imagem: Paul Klee, mother and Chid, 1938.
voltar ao menu

Desconstruções

Quando a gente conhece uma pessoa, construímos uma imagem dela. Esta imagem tem a ver com o que ela é de verdade, tem a ver com as nossas expectativas e tem muito a ver com o que ela "vende" de si mesma. É pelo resultado disso tudo que nos apaixonamos. Se esta pessoa for bem parecida com a imagem que projetou em nós, desfazer-se deste amor, mais tarde, não será tão penoso. Restará a saudade, talvez uma pequena mágoa, mas nada que resista por muito tempo. No final, sobreviverão as boas lembranças. Mas se esta pessoa "inventou" um personagem e você caiu na arapuca, aí, somado à dor da separação, virá um processo mais lento e sofrido: a de desconstrução daquela pessoa que você achou que era real.
Desconstruindo Flávia, desconstruindo Gilson, desconstruindo Marcelo. Milhares de pessoas estão vivendo seus dias aparentemente numa boa, mas por dentro estão desconstruindo ilusões, tudo porque se apaixonaram por uma fraude, não por alguém autêntico. Ok, é natural que, numa aproximação, a gente "venda" mais nossas qualidades que defeitos. Ninguém vai iniciar uma história dizendo: muito prazer, eu sou arrogante, preguiçoso e cleptomaníaco. Nada disso, é a hora de fazer charme. Mas isso é no começo. Uma vez o romance engatado, aí as defesas são postas de lado e a gente mostra quem realmente é, nossas gracinhas e nossas imperfeições. Isso se formos honestos. Os desonestos do amor são aqueles que fabricam idéias e atitudes, até que um dia cansam da brincadeira, deixam cair a máscara e o outro fica ali, atônito.
Quem se apaixonou por um falsário, tem que desconstruí-lo para se desapaixonar. É um sufoco. Exige que você reconheça que foi seduzido por uma fantasia, que você é capaz de se deixar confundir, que o seu desejo de amar é mais forte do que sua astúcia. Significa encarar que alguém por quem você dedicou um sentimento nobre e verdadeiro não chegou a existir, tudo não passou de uma representação – e olha, talvez até não tenha sido por mal, pode ser que esta pessoa nem conheça a si mesma, por isso ela se inventa.
A gente resiste muito a aceitar que alguém que amamos não é, e nem nunca foi, especial. Que sorte quando a gente sabe com quem está lidando: mesmo que venha a desamá-lo um dia, tudo o que foi construído se manterá de pé
Martha Medeiros

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Contador de Histórias

Há muito anos atrás eu estava assistindo um programa na Tv cultura, foi quando, pela primeira vez eu ouvi a história do mineiro, Roberto Carlos Ramos, um pedagogo que teve uma infância marcada por abandonos e outras coisas tristes, a mais. E fiquei muito feliz, quando fiquei sabendo que, a sua história tinha se tornado um filme, é muito comovente, e traz à tona todo um raciocício social, a questão da menor idade, enfim. Eu penso que seja interessante ver a história desse homem sob a ótica cinematográfica. Fica o convite...

domingo, 9 de agosto de 2009

...

Nem estou perto do meu pai hoje, mas liguei, mesmo que a gente nem sinta essa necessidade obrigatória de ligar e dar os parabéns, que convencionalmente a cultura nos impôs. Mesmo porque, eu e ele, estamos ligados há muitos anos, e nos falamos quase todos os dias. Eu tenho um sentimento de gratidão por essa pessoa, por esse pai, por tudo que a gente viveu até hoje, nas nossas estranhezas, nas nossas semelhanças, no nosso olhar nem sempre expressivo de serenidade, mas muito sincero e revelador. Salve, Salve!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Escrever é como comer maça...

"O processo de escrever é difícil?
Mas é como chamar de difícil
o modo extremamente caprichoso
e natural como uma flor é feita".

Clarice Lispector, Legião estrangeira.

O Exercício da escrita não é algo fácil, mas pode ser tão simples! Não é como um diário, uma agenda, ou numa folha, que você pega em qualquer lugar e faz alguns rabiscos, ou que você vai colocando as palavras cronologicamente, onde espaço e tempo ficam delimitados, organizados. Escrever, escrever mesmo, é um processo,
mas não preciso de ritual, de trilha sonora específica, pode até ser como agora, com um carro do som passando na rua e anunciando: "olha a pamonha!! pamonha de sal, de doce, a moda...". Prefiro com queijo, derretendo. Escrever comendo maça, skinny, bebendo suco, água, chá de hortelã, quando está frio, coisa difícil aqui. Vinho acompanha bem a minha escrita, mas eu posso escrever com a boca molhada de imaginação, de fragmentos que vão se unindo na trajetória do que se deseja colocar. Não tem muito mistério, aliás sempre achei o mistério ou o misterioso sem graça, o interessante no mistério é ele em si, e mais nada. Vou continuar a escrever, noutro lugar, comendo maça. Até...
Iza Junqueira

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Cada povo tem o político que merece?

(...) A verdade não existe fora do poder ou sem poder (...). A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sancionam uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT, 2005, p.12)

Duas frases para hoje...

Do amor.

´´No amor, não existe nada senão um desejo frenético do que foge de nós.´´ - MONTAIGNE

´´ Não é costume se amar o que se tem. ´´ - ANATOLE FRANCE -

Na impossibilidade de ter, não busca: acha-te ... é a ´´sozinhez´´ meus caros, nosso destino gozozo de encontrar...

sábado, 1 de agosto de 2009

Psicanálise funciona, diz estudo médico (Folha de S. Paulo)

Como se a gente já não soubesse da Sua eficácia, mas é sempre bom um destaque mais amplo...

Pesquisas recentes em psicanálise


Folha de São Paulo -05/10/2008 - A psicanálise intensiva, a "cura pela fala" enraizada nas idéias de Freud, pode estar sob ameaça numa era de tratamentos farmacológicos e pressão por eficácia financeira da assistência médica. Mas cientistas estão relatando agora que ela pode ser eficiente contra alguns problemas mentais crônicos, incluindo a ansiedade e a personalidade limítrofe.
Em uma revisão de 23 estudos sobre esse tipo de tratamento envolvendo 1.053 pacientes, os pesquisadores concluíram que essa forma de terapia, mais intensiva, aliviou sintomas dos problemas com muito mais eficácia do que algumas terapias de curto prazo.
Em estudo na revista "Jama", da Associação Médica Americana, os autores emitem um alerta para que mais terapias "psicodinâmicas", como as definem, sejam testadas antes que acabem descartadas como meras curiosidades históricas.
A revisão no "Jama" foi a primeira do tipo para psicanálise a aparecer numa revista técnica médica de alto impacto, e os estudos nos quais o novo artigo se baseia não são muito conhecidos dos médicos em geral.
Por muitos anos, nos EUA, esse campo tem resistido ao escrutínio científico, sob alegação de que o processo de tratamento é altamente individualizado e, portanto, não se presta a esse tipo de estudo. O tratamento se baseia na idéia de Freud segundo a qual sintomas estão enraizados em conflitos psicológicos subjacentes, que podem ser descobertos por meio do relacionamento próximo paciente-terapeuta.

Atenção intensa
Especialistas alertam que a evidência citada na nova pesquisa ainda é muito escassa para uma alegação clara de que a terapia psicanalítica é superior a outros tipos de tratamento, como a terapia cognitiva comportamental, de curto prazo.
"Mas essa revisão certamente parece contradizer a noção de que terapias cognitivas ou outras de curto prazo são melhores que quaisquer outras", diz Bruce Wampold, psicólogo da Universidade de Wisconsin. "Quando bem feita, a terapia psicodinâmica parece ser tão eficaz quanto qualquer outra."
Os autores da revisão -Falk Leichsenring, da Universidade de Giessen, e Sven Rabung do Centro Médico Universitário de Hamburg-Eppendorf, ambos na Alemanha- consideraram só estudos nos quais a terapia analisada tinha pelo menos duas sessões por semana e duração maior que um ano.
Os cientistas examinaram os estudos que seguiram pacientes com diversos problemas mentais, dentre os quais depressão severa, anorexia nervosa e transtorno da personalidade limítrofe -caracterizado por medo de abandono e surtos de desespero e carência.
A terapia psicodinâmica "mostrou efeitos de tratamento significativos, grandes e estáveis, que até aumentavam significativamente entre o fim do tratamento e a avaliação", disse Leichsenring.
A revisão, contudo, não encontrou correlação entre a melhora dos pacientes e a duração do tratamento. Mas eles de fato melhoraram, e os psiquiatras afirmaram que ficou claro que pacientes com problemas emocionais graves e crônicos se beneficiavam da atenção próxima, freqüente e perseverante dos psicanalistas.
"Se definirmos a personalidade limítrofe de modo amplo, como uma incapacidade de controlar emoções, ela se aplica a muitas pessoas que aparecem nas clínicas e são diagnosticadas com depressão, bipolaridade pediátrica ou vício em drogas", diz Andrew Gerber, psiquiatra da Universidade Columbia, Para alguns pacientes, diz, "esse estudo sugere que a terapia de longo prazo é necessária para a melhora durar".

Freud no "Jama"
Alguns psicanalistas ficaram mais surpresos com a publicação que veiculou o estudo do que com o resultado do trabalho. Artigos de revisão no "Jama" e em outras revistas médicas costumam analisar centenas de estudos, enquanto a revisão de agora tinha só 23. O trabalho de Leichsenring é encorajador, dizem, mas é também sinal de que muitos outros estudos precisam ser feitos.
Barbara Milrod, psiquiatra do Weill Cornell Medical College, que também adota terapia psicodinâmica, afirma que mais pesquisas são cruciais para a sobrevivência dessa linha como um tratamento válido.
"Vamos cair na real", diz. "Os grandes centros médicos estão encerrando os programas de treinamento psicodinâmicos porque não há uma base de evidências adequada."

Autor: Desconhecido
Fonte: Jornal Folha de SP

JAMA: The Journal Of the American Medical Association.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Minhas Digressões sobre o Tempo...


TEMPERANÇA

A espera, tem se tornado parte contínua na minha vida.

Um ritual sagrado.

Existe espera no Tempo?

ou tudo que imaginamos ser espera

é mera viagem ...

Tempo!

Tão grandioso, tão pequeno , tão (só)

Tempo é gente? fantasma? solidão?

Espera-se do Tempo: o sol, a chuva, as flores, o amor, o filho, o medo, a morte, além...

Personificamos o Tempo quando perguntamos: como está o Tempo hoje?

Mas não há fala no Tempo.

Tempo é aquilo que nos falta responder

Tempo é furo

é divã suspenso no ar.

Iza junqueira

gyn 06/01/2001.


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Diálogos de Amor


Trecho do livro: Diálogos de amor de Leão Hebreu

Sofia: Como podes dizer que o verdadeiro amor nasce da razão? Pois sempre ouvi dizer que o amor perfeito não pode ser governando nem limitado por nenhuma razão, e por isso lhe chamam “desenfreado”, porque não se deixa domar pelo freio da razão nem governar por ela.

Fílon: É verdade o que ouviste, mas se eu disse que tal amor nasce da razão não te disse que se limita e guia por esta. Digo-te, pelo contrário, depois de engendrado pela razão cognoscitiva, logo após o nascimento já se não deixa mandar nem governar pela razão da qual foi gerado, mas recalcitra contra a mãe e torna-se, como disseste, tão desenfreado que redunda em prejuízo e dano do amante, porque aquele que tem sincero amor a si próprio se desama.

Ps: Quem souber de alguma livraria, de livros usados, que tem esse livro, por favor, me avise. Já pesquisei na internet e só um sebo no Rio de Janeiro que tem, mas eles me passaram poucos dados...Grata!

Sobre o autor:Filho de Isaac Abravanel, nasceu em Lisboa, em 1465, tendo vivido também em Espanha e em Itália. Supõe-se que terá morrido em 1534.
Bibliografia
Giuseppe Saitta «La filosofia di Leone Hebreo» in Filosofia Italiana e Humanismo, Veneza, 1928;José Narciso Rodrigues, «A filosofia de Leão Hebreu. O amor e a beleza» in Revista Portuguesa de Filosofia, t. XV, fasc. 4, Braga, 1959, pp. 349-386;José Barata Moura «Amizade humana e amor divino em Leão Hebreu», in Didaskalia, vol. II, fasc. I, Lisboa, 1972, pp. 155-157;Id., «Leão Hebreu e o sentido do amor universal» in Didaskalia,, vol. II, fasc. II, Lisboa, 1972, pp. 375-404; Joaquim de Carvalho, Leão Hebreu Filósofo, in Obras Completas de Joaquim de Carvalho, vol. I, Lisboa, 1978;J. Pinharanda Gomes, A filosofia hebraico-portuguesa, Porto, 1981.

domingo, 26 de julho de 2009

Um Hai Kai para Freud

É DEVASSA ESSA MULHER
QUE SEUS SONHOS EXPÕE
QUANDO ABRE A VIDRAÇA?

Rogério Viana

Hoje assisti ao programa, De lá pra cá, apresentado pelo jornalista Ancelmo Gois, em homenagem a Paulo Leminski. Contando sua trajetória, um jovem com 18 anos, que já nasceu concreto, como ele mesmo dizia, se referindo aos já consolidados poetas concretos, citando Augusto de Campos, Haroldo de Campos e outros...Desde a adolescência eu adorava o Leminski e em especial uma de suas melhores expressões: o Hai Kai.

Quem desejar conhecer mais sobre o Hai Kai, acesse:

http://www.seabra.com/haikai/

Divulgação - Instituto Sedes Sapientiae

O Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae em comemoração
aos 100 anos da publicação do marco inaugural da psicanálise com crianças - “Análise da fobia de um menino de cinco anos”, o caso Hans, de S. Freud - promove o COLÓQUIO 100 ANOS DE PSICANÁLISE COM CRIANÇAS.
O Colóquio será composto por mesas redondas e sessões coordenadas de trabalhos e estará organizado em torno de quatro eixos temáticos que buscam mapear a singularidade desta prática clínica, seus fundamentos metapsicológicos, psicopatológicos e aspectos históricos de relevo que marcaram o primeiro século desta clínica.
Convidamos os interessados a participar desse encontro que pretende promover debate e reflexão conjunta.Data e local: dias 28 e 29 de agosto de 2009, no Instituto Sedes Sapientiae em São Paulo.


Contato: Instituto Sedes Sapientiae (Rua Ministro Godoy, 1484 - Perdizes - São Paulo,SP)
Informações: 3866.2730 ou http://www.sedes.org.br/
Email para contato:

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sobre a Transitoriedade

Van Gogh - noite Um dos textos que mais gosto em Freud, é quando ele fala sobre a transitoriedade (vol. XIV - 1914 -1916). Além de ser um texto muito bem escrito, ele nos sensibiliza ao ponto de revermos as nossas travessias,e que, a duração das coisas em nós, tem o momento de chegar e de ir. Seja alguém, um presente, uma flor, as estações do ano...e por aí vai. " Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal". (pg 346)
Rodrigo, um caro amigo, postou um comentário sobre o que eu escrevi sobre "o luto por pessoas que não morreram", e ele fala sobre o transitório, e eu tenho vivido muito isso, aliás a gente vive todos os segundos isso, e essas nossas conversas sobre todas as coisas que vivemos e que se foram, mas que ficaram em nós, estão me fazendo muito bem...As coisas ficam mais leves quando a gente percebe o significado e aceita, na medida do possível, o que vem e o que vai...
Vou deixar um link aqui para quem quiser ler um pouco mais sobre Sobre a transitoriedade: o objeto e o tempo. Por Simone Souto.
Eu gostei muito...
http://www.ebp.org.br/biblioteca/pdf_biblioteca/Simone_Souto_Sobre_a_transitoriedade_o_objeto_e_o_tempo.pdf

terça-feira, 21 de julho de 2009

Citação da noite

"Nunca é tarde

para abrirmos mão

dos nossos preconceitos"

Henry David Thoreau

O luto por pessoas que não morreram

"Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história". Hannah Arendt

A primeira vez que assisti "Meu primeiro amor", eu chorei. E as outras 10 vezes, também. Chorei de saudade de muitas pessoas, chorei pelo amor que se foi, enfim, é um filme entre duas crianças que se enamoram, e de repente o menininho morre com uma picada de abelha, e ela então, vive seu primeiro grande luto. Mas tem gente que desaparece em vida, numa ruptura brusca, sem tempo pra gente velar, olhar mais uma vez, mandar algumas flores, recitar um poema, colocar uma música, se despedir, dar o último abraço, mandar ir pro inferno! fazer todos os rituais que nos cabe. Enterrar. E o enterro pode demorar muito mais tempo para acontecer do que a gente possa imaginar. As pessoas costumam dizer, que no máximo dois anos, podemos nos curar de uma paixão, como se os nossos desejos obedecessem ao Tempo. As vezes quatro anos sem a pessoa amada, não pode ser mensurado com o passar dos dias, mas apenas pelo sentimento da saudade, da ausência. Tem pessoas que conseguem resolver esses desaparecimentos com mais facilidade, outras, ficam mais tempo nesse luto em vida, como costumo dizer. Mas um dia passa, sem a gente menos esperar, e se dar conta. E nós continuamos essa travessia, desejando, querendo ser amada, mesmo que tenhamos mais uma vez, passarmos pelo doloroso luto, em vida.

domingo, 19 de julho de 2009

Conheça o CADA

Assegurar às pessoas carentes, portadoras do Vírus HIV, os direitos e garantias fundamentais, prestando apoio moral, humano, material e a solidariedade, negado as vezes pela própria família, muitas das vezes por falta de informação.

www.cada.com.br

Vale uma post...

"...Na galeria,
cada clarão
É como um dia
depois de outro dia
Abrindo o salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão..."

Parabéns pela suas fotos e pela exposição, Rodrigo.
Ficaram belas.

Exposição: Trindarte. Alunos da Canopus, numa peregrinação fotográfica, na festa do Divino Pai Eterno - Trindade -GO

Uma época eu quis fazer o caminho dos romeiros, não por afinidade religiosa, mas pela história, pela cultura. Pensei em acompanhar uma família desde o trevo do Guapó, e fazer a mesma travessia com eles, a pé! A cavalo não, porque ia judiar demais do bicho. Mas eu ainda penso em fazer isso, tenho uma máquina Olympus -35 SP, deve ter uns 40 anos, mais ou menos, era da minha mãe e ela me deu de presente. Não é High Tech como a tua, Rodrigo, mas cada um tem o foco que merece, mas acredito no meu ...vou pensar no caso...

sábado, 18 de julho de 2009

Diz que fui por aí...


Cantada pela Nara Leão ficou única, mas na voz da Fernanda Takai, encaixou.
Vou postar para esse fim de semana, já que quase todo mundo, sai por aí... O Clip é uma beleza a parte

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O Retorno diário da barbárie...

Esse jovem foi baleado na cabeça, ao sair de um shopping aqui de Goiânia. Estava assistindo um filme com um amigo, e esperava o pai num ponto de ônibus, quando um carro parou e um dos rapazes disparou um tiro na cabeça de Felipe Borges Feitoza "(alegando que foi, por engano"). Ele está internado no hospital Neurológico de Goiânia, em estado grave. Felipe , 16 anos, tinha sido aprovado no curso de computação, da UFG.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Exposição de fotografia

A escola mais tradicional de fotografia de Goiânia, a CANOPUS, realizará uma exposição , cujo o foco, foi em relação aos peregrinos da Festa do Divino Pai Eterno, que acontece todos os anos, em Trindade - Go. Estarei lá prestigiando, e especialmente as fotos de Rodrigo Januário, meu querido amigo.

Clik no Flyer para ampliar e veja programação.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Ai ai, nossas fragilidades...


Frágil - Você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.

Caio Fernando Abreu

domingo, 12 de julho de 2009

O nome da cidade



Esta música é baseada no livro de Clarice Lispector, A Hora da Estrela, que fala de Macabéa, personagem marcada por uma infância pobre e violenta. Com 19 anos ela se muda para o Rio de Janeiro, e quando chega na cidade, tem uma mistura de sentimentos e desejos.E a música fala um pouco desse momento vivido por essa mulher, vinda do nordeste.

É uma das músicas que mais gosto de cantar e ouvir. Gosto muito na voz da Maria Bethânia, mas não encontrei. Mas ficou linda, cantada por Adriana Calcanhoto..

A Hora da Estrela transita entre o lado trágico e o lado esplêndido da vida, entre a fragilidade e a grandeza do ser humano. O tema da solidão tem a função de dar destaque às desigualdades sociais e ao enigma da vida, imprimindo novas perspectivas aos problemas e indagações que nos cercam.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ainda que o homem se angustie em vão, contudo ele caminha na imagem.
(Santo Agostinho)




Titulo: A Fragmentação de Narciso perante a Eco (A Soberba)

Colecção: As Angustias do Bicho Homem Moderno
Autor: Gregório Mucio

terça-feira, 7 de julho de 2009

Rainer Maria Rilke, Sonetos a Orfeu

Michelangelo - Caravaggio

Espelhos: com saber ninguém descreveu ainda
O que sois em essência.
Vós, intervalos de tempo,
De todo preenchidos como vazios de peneiras.

Vós, ainda perdulários da sala vazia -,
Ao cair da noite, como florestas distantes...
E o lustre atravessa vossa integridade,
Como um cervo de dezesseis galhas.

Às vezes sois cobertos de pinturas.
Algumas parecem incorporadas -,
Outras, dispensastes acanhadamente.

Porém, a mais bonita há de ficar -, até
Que lá em cima tenha penetrado em
Suas faces contidas o Narciso claro e livre.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Citação do dia...


Ontem, assistindo "Café Filosófico", ouvi Contardo Calligaris falar sobre o ideal de casamento, a questão da fidelidade e companheirismo. E pensei numa frase para deixar aqui, nesse início de semana...

"SER FIEL AOS PRÓPRIOS DESEJOS E SUSTENTÁ-LOS, JÁ É UMA FORMA DURADOURA DE AMAR".

quinta-feira, 2 de julho de 2009

FLIP - saudades de Paraty

Esse mês de julho, paraty respira poesia e tudo o mais que a palavra possa transmitir para nós, amantes de tudo que tem uma sonoridade poética. Todos os anos eu penso: "Nesse eu irei a Feira Literária de Paraty" ou simplesmente FLIP. Não somente pelo desejo de ir ao evento, como também, para resgatar um pouco do que vivi na infância, durante as férias. Isso no começo dos anos 80. Nessa foto, eu estava com minha mãe, meu irmão e meu pai, no momento, tirando a foto. Mas esse ano ainda não poderei realizar esse desejo, vou me contentar com as recordações, de inúmeras fotos tiradas nessa cidade, que eu adoro, e também lendo, lendo muita poesia, que é uma das coisas que eu amo fazer. E no mais, é continuar desejando ir a FLIP ano que vem...quem sabe...


Acordei lendo Hilda...

Ave Nave Moinho

E tudo mais serei

Para que seja leve

Meu passo

Em vosso caminho"

Hilda Hilst .

domingo, 28 de junho de 2009

Mulher é linguagem

Toda mulher é uma viagem

ao desconhecido. Igual poesia

avessa ao verso e à trucagem,

mulher é iniciação do dia,

promessa, surpresa, miragem.

De nada adiantam mapas, guias,

cenas ensaiadas ou pilhagens.

Controverso ser, mulher é via

de mão única, abismo, moagem.

É também risco máximo, magia,

caminho íngreme na paisagem.

Simplificando: mulher é linguagem,

palavra nova, imagem que anistia

o ser, o vir-a-ser e outras bobagens.


Rubens Jardim

.http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3912asp?id=3912



sexta-feira, 19 de junho de 2009

Artigo sobre Sabina Spielrein

A revista Mente e Cérebro nº197 deste mês de junho, tem um artigo publicado pela psicanalista Renata Udler Cromberg: "Sabina Spielrein, pioneira da psicanálise" escrito a convite da editora Glaucia Leal, escrito a partir da sua tese de doutoramento no IPUSP.

Renata é psicanalista, formada em filosofia e psicologia pela Universidade de São Paulo. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. É autora dos livros Paranóia (Casa do Psicólogo, São Paulo, 2000) e Cena Incestuosa (Casa do Psicólogo, São Paulo, 2001). Escreveu vários ensaios, artigos e resenhas para livros, revistas e jornais, entre os quais, Tornar-se autora, para o livro Psicanálise, cinema e estéticas de subjetivação (Imago, Rio de Janeiro, 2000) e Un corps que tombe un corps que se réléve, para o livro Féminilité autrement (PUF, Paris,1999). É doutoranda do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP com a pesquisa O trabalho do amor - Sabina Spielrein e a emergência do conceito de pulsão de morte.

Quero começar o fim de semana com Clarice

Minha alma tem o peso da luz.

Tem o peso da música.

Tem o peso da palavra nunca dita,

prestes quem sabe a ser dita"

Clarice Lispector

Foto as 03:00 da manhã: por Rodrigo Januário
grande amigo. Viagem nossa, a Floripa...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Sinais Abertos - por Iza Junqueira

Em 1969 Paulinho da Viola lança uma música chamada: Sinal Fechado. É um diálogo contido, entre duas pessoas, que não se vêem há algum tempo, e que num momento se encontram na rua, dentro dos seus carros, ou até mesmo a pé, esperando o sinal abrir, e ali naquele pequeno espaço de tempo, foi possível um encontro. Poderia ter sido um encontro entre dois homens, duas mulheres, um homem e uma mulher, ex marido e ex mulher, a letra é totalmente aberta para a imaginação, e você pode se colocar nela, sem dúvida, mesmo depois de tantos anos. E esse ano em que foi feita essa canção, o Brasil estava em plena ditadura militar, onde a linguagem era completamente vigiada, reprimida e censurada, e o autor adapta o discurso, para que ele fosse emblema de uma época em que se tinha tanto a dizer e não se podia.

“Mudaram as estações, nada mudou”. E será que mudaram muitas coisas de lá para cá, em relação a possibilidade dos encontros reais, do discurso entre pessoas que se desejam, que se gostam? É comum se ouvir: “Nossa, estou correndo demais, estou sem tempo para nada”. A menos que estejam fazendo cooper, ou se desculpando de não querer o encontro, as pessoas estão correndo de quem e para onde? É um tempo que está sendo marcado cada vez mais pela individualização, é um outro tipo de ditadura subjetiva, de recolhimento. A internet, como um outro lugar possível de relacionamento, é também um espaço de ilusões, em que se tem a sensação de domínio, controle e de que tudo é possível a partir das relações estabelecidas ali. Dentro do meu quarto eu “ posso” conhecer o mundo. E assim o mundo se distancia cada vez mais. E o tempo, esse que nós gostamos tanto de culpar, é o grande vilão daquilo que poderia ser prazeroso: os encontros possíveis, o olhar, o diálogo. Um sinal aberto.

Vídeo da música - sinal fechado

http://www.youtube.com/watch?v=IEUPH1A7YkM

.



sexta-feira, 12 de junho de 2009

Indicação do livro: O Tempo e o Cão - A Atualidade das Depressões - Maria Rita Kehl

Escrito a partir de experiências e reflexões sobre o contato com pacientes depressivos, o livro aborda um tema que, apesar de muito comentado, é pouco compreendido. Para abordá-lo, Maria Rita faz um apanhado do lugar simbólico ocupado desde a Antigüidade clássica até meados do século XX, quando Freud trouxe esse significante do campo das representações estéticas para o da clínica psicanalítica. O livro toca também na relação subjetiva dos depressivos com o tempo, chamado pela autora de temporalidade. Para a construção deste pensamento, são utilizados conceitos dos filósofos Henry Bergson e Walter Benjamin, ambos dedicados à reflexão sobre essa questão.

A propaganda da depressão

A depressão parece ser hoje, um mal necessário, pelo menos para a indústria medicamentosa e pelos profissionais, que ainda acreditam que é possível medicar o afeto, a tristeza, o sono, os amores perdidos, e dão essa falsa esperança aos pacientes, que por alguns meses se sentem bem, mas que em algum momento terão que lidar com essas questões de uma outra forma. E medicam tanto que o sujeito não tem ânimo para sair de casa, cuidar se si, procurar um novo amor, ir ao analista. Mas os índices de suicídio, principalmente entre adolescentes, é preocupante.

A sensação de melhora rápida dos conflitos, encoraja esse adolescente e em vez de resolver esses conflitos, ele se mata. Os consultórios psiquiátricos estão cheios, pessoas procurando um alívio imediato para suas dores, para suas “esquisitices”, e tendo a falsa impressão de que é preciso ser forte o tempo todo, dar conta de tudo, resolver tudo, não chorar, não sofrer, e a fragilidade faz parte de nós! e é preciso entrar em contato com essas fragilidades para que a gente possa se reconstituir enquanto sujeitos, saber falar da gente, saber lidar com a gente.

Essa tentativa de transformar o sofrimento em patologia é o grande marketing da indústria psicofarmacológica, que vende suas tarjas pretas e cega o sujeito, que fica impedido de reconciliar com as suas questões afetivas. A idéia do normal e do patológico precisa ser investigado melhor.

A psicanálise propõe que o sujeito deprimido volte a fantasiar, fazer uma travessia que facilite o acesso ao imaginário, encorajar a pessoa para que ela possa falar das suas dores, expô-las em vez de encobri-las. Todo mundo tem algo a dizer, mesmo que por algum tempo, alguma coisa lhe fuja à lembrança.

por Iza Junqueira Rezende



quinta-feira, 11 de junho de 2009

Livro do mês: Travessias singulares - pais e filhos, comentário de Urariano Mota

- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo...

“Travessias singulares – Pais e Filhos” é um livro sobre o qual os grandes jornais ainda não falaram. Mais um livro no silêncio, para todas as redações, poderia ser dito. É para romper essa paz dos cemitérios que alinhavo aqui algumas linhas.

“Travessias Singulares – Pais e Filhos” é uma antologia que reúne escritores grandes, magníficos, e, dói-me dizê-lo, pequenos. De Machado de Assis a J. J. Veiga, passando por Moacyr Scliar, Carlos Heitor Cony, Antonio Torres, Wander Piroli, Silviano Santiago, Raimundo Carrero. Todos unidos pelo tema da relação entre pai e filho, de norte a sul do Brasil, do século XIX ao XXI. Essa é uma relação que interessa a todos os brasileiros, de pais que faltamos a um companheirismo, até os filhos que não guardam com os seus algum amor. Um terreno de conflito, mágoa e afeto, já se vê. Nem precisamos associar o livro a Édipo, o Rei, que matou o rival para dormir com a mãe, nem precisamos lembrar aquela turbulência de Os Irmãos Karamazov. Bastaria a referência do eterno Kafka, em Carta ao Pai.

Não tínhamos no Brasil até aqui algo sequer parecido. Não por falta de conflito, ternura ou guerra nessa relação, é claro. Não por falta de escritores que aqui e ali não se furtaram a essa coisa tão íntima quanto a relação com o útero materno. Uma relação-correspondência que nem sempre chega ao destinatário, fundamental para a definição da identidade, do caráter que somos. Fundamental até na sua falta. Lembro que na entrevista com Ubirajara, o sem-teto que virou funcionário do Banco do Brasil, ele chegou a dizer que a falta do pai, que o rejeitara, lhe doía mais que a fome.
Nesse livro agora vindo à luz participei de duas pequeníssimas maneiras. Na primeira delas, quando localizei o escritor Renard Perez, que muita gente tomava como perdido, desaparecido ou morto. Aos 80 anos, no Rio de Janeiro, Renard só se comunicava com o mundo pelo telefone, que nem sempre atendia. Estava sozinho, imagino que em depressão, porque havia perdido a esposa há poucos meses. Quando lhe pedi algum contato, algum email de amigo, ele me respondeu, “eu não tenho amigos”. Localizei-o com muita felicidade, em razão da sorte e da alegria que senti na sua voz, ao me dizer que há muito não ouvia uma voz nordestina. Renard é natural de Macaíba, no Rio Grande do Norte. Para saber o valor da sua força, recomendo a leitura do seu conto, presente nessa antologia, “A morte do pai”. É um soco, uma lição e uma denúncia.

Na segunda maneira, participo do livro com o texto “A casa de meu pai”. É o relato de um certo pai, brutal, brutalizado e brutalizante, cuja máxima pedagógica era “bato num filho como quem bate num homem”. Os poucos leitores agora compreendem por que disse lá no começo que escritores pequenos também estão nessa antologia. Entre esses não se encontram Domingos Pellegrini, Aluísio de Azevedo, nem o grande e até há pouco esquecido Renard Perez.

O feliz editor é Rosel Bonfim, da Casarão do Verbo. O livro está nas boas casas do ramo. Mas se em algum lugar do Brasil ou do exterior não chegar, escrevam para o email do editor, roselbonfim@hotmail.com. Se um livro salva um escritor, do nível de Renard Perez, deve ser lido e saudado. Se uma antologia nos fala dessa relação de guerra e paz, merece a nossa estima. Para nos lembrar que um dia fomos filhos, e seria bom que não repetíssemos os pais que recebemos. Por uma questão de consciência. Deus ou a humanidade condenam.

www.cronopios.com.br




segunda-feira, 25 de maio de 2009

Mensagem da Leonor

Iza! Adorei nossa foto, adorei nosso trabalho, foi muito bom atravessar e construir com vocês o conceito de Complexo de Édipo na obra freudiana.Gostei de contar com a presença e interesse de vocês que tornou tão "quente" nosso debate e em cada encontro pude renovar com voces nosso entusiasmo na pesquisa, na discussão clínica: material para a produção de um percurso formativo. Espero que dessa viagem tenhamos saído todos transformados,como deve ser toda experiência estética, no sentido mais forte do termo, a experiência que decorre de uma atmosfera afetiva na construção de uma objetividade na qual o sujeito participa ativamente, interpretando-o subjetivamente... e é sempre bom lembrar que a análise pessoal é o que faz a nossa "diferença".Beijo carinhoso em todos.
Leonor Rufino

domingo, 24 de maio de 2009

Trajetória...

Há dois anos e meio atrás iniciou-se um curso de formação permanente em psicanálise, organizado pelo Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, juntamente com a Clínica Dimensão de Goiânia. Algumas entrevistas foram feitas e então começamos uma história juntos. Algumas pessoas não foram selecionadas, poucas desistiram por motivos particulares e" nós aí na foto" continuamos!(apenas Luzia não estava nesse dia) Primeiro módulo tivemos a Psicanalista Cleide Monteiro, sempre muito motivada a nos apresentar sua experiência clínica-teórica, muito dedicada, e foi um módulo bastante produtivo. Depois veio Paula Francisquetti, psicanalista, e ela veio com uma proposta diferente, num ritmo mais silencioso, onde tinha espaço de sobra para grandes produções. E ano passado começamos outro módulo com Leonor Rufino, psicanalista também. O que falar da Leonor? Muitas coisas boas! mas o bom mesmo é ouvir ela falar, e ela fala! fala com gosto, como dizemos aqui em Goiás. A gente foi percebendo uma mobilização entre nós, um elo muito forte, posso dizer até de cumplicidade. E ela falava e a gente falava junto e de repente a gente se olhou num mesmo foco, e a gente se fez grupo. Em junho virá a Fátima Milnitzky, que eu já tive a oportunidade de conhecer e ouvir num encontro aqui em Goiânia, e ela tem um movimento bastante interessante e certamente vai fazer a diferença nesse próximo módulo. Estamos te esperando, Fátima. Agradeço a todos vocês desse grupo: Angela, Marcela, Lena, Tathiana, Walter, Márcia, Ana, Luzia, Viviane, muito bom fazer esse curso com vocês.

Iza Junqueira

sexta-feira, 3 de abril de 2009

indico: O Complexo do qual nenhuma criança escapa.





Descrição: O que é o complexo de Édipo? A partir de sua vasta experiência como palestrante e clínico, J.-D. Nasio analisa separadamente o desenvolvimento do conceito mais crucial da psicanálise no menino e na menina. Sempre claro e objetivo em suas exposições, avalia a presença do Édipo na raiz das neuroses ordinárias e mórbidas do homem e da mulher, e sintetiza os principais tópicos relativos ao tema ? como a castração, a figura do Falo e o papel exercido pelo pai nesse processo. Ao longo do livro, seções curtas com esquemas e quadros comparativos. E ainda: um apanhado de citações-chave de Freud e Lacan sobre o Édipo
Editora: Jorge Zahar
Autor: J.D. NASIO

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Um bom dia de poesia...

ENIGMA

Na ânsia de um segredo guardado,

reservado,

vou à busca do meu bem querer...
Na ausência da força,

transformo minha fragilidade em divisões,

onde cada parte tem um momento de você...
Tem a essência da sua alma,

a força do seu olhar,

a firmeza dos seus braços...
Tem seu sorriso que me desequilibra

quando a ausência teima em me deixar

ao fragmentos invadidos por reservas...
Você chega,

desarruma minhas armaduras

e ainda ensina a cada dia

a receita de como decifrar

o verdadeiro enigma
do começar,

do recomeçar,

do acreditar

em todos os motivos

que nos faz crescer

em nome do sentimento maior...


Cecília Mello

Cecília tem um discurso próprio de escrever poesia. Os afetos são indissociáveis, o amor, a entrega incondicional, as perdas e o” re-começo” de uma outra história, transformada em poesia, marcam sua caminhada como escritora. Uma leitura psicanalítica dos versos dessa poetisa, retratam uma entrega ao amor, densa, e nem o fenômeno-limite da dor, são barreiras para novas e belas construções. A poetisa faz parte da Diretoria da UEB, União Brasileira de Escritores – Seção Goiás.


Cecília Mello, poetisa, Paulista, mas desde 1986 vem construindo uma história poética em Goiás. Tem 5 livros já lançados:
1988 – Angústias Naturais
1990 – Buscas e Voltas
1993 – Caminhos Cruzados
2001 – De mãos Dadas
2003 – Evidência
Está produzindo o 6º livro “Fertilidade” que deve lançar em breve.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

um bom livro, para um bom começo...

Através de cartas imaginárias enviadas a dois terapeutas iniciantes – um jovem e uma jovem –, o psicanalista Contardo Calligaris divide com o leitor todo seu conhecimento e experiência em psicologia. Calligaris ecorre ao eficiente método de perguntas e respostas para discutir e se aprofundar na profissão, e dá as informações necessárias a quem deseja conhecê-la melhor. Em tom bem-humorado e afetuoso, Contardo fala sobre o que é necessário para ser um bom psicoterapeuta, discute situações em que o paciente se apaixona pelo terapeuta, reflete sobre o começo da carreira, as diferenças entre psicoterapia e psicanálise, a problemática de se conseguir mais pacientes, entre outras questões.
Cartas a um jovem Terapeuta
editora: Campus

segunda-feira, 30 de março de 2009

"Fantasia é um pequeno romance de bolso"

Definição de fantasia
O fenômeno da fantasia é um dos fenômenos mais espantosos da vida psíquica. Que é uma fantasia? É um pequeno romance de bolso que carregamos sempre conosco e que podemos abrir em qualquer lugar sem que ninguém veja nada nele, no trem, no café e o mais freqüentemente em situações íntimas. Acontece às vezes de essa fábula interior tornar-se onipresente no nosso espírito e, sem nos darmos conta, interferir entre nós e nossa realidade imediata. Concluímos então que muita gente vive, ama, sofre e morre sem saber que um véu sempre deformou a realidade dos seus laços afetivos.

Artigo de Nasio Juan-David, psicanalista argentino

Quem desejar ler esse artigo acesse o site:


http://www.zahar.com.br/doc/t1122.pdf





domingo, 29 de março de 2009

Frase do dia...



'Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou seu amor'(Freud). Acho essas frases notáveis porque elas dizem claramente o paradoxo incontornável do amor: mesmo sendo uma condição constitutiva da natureza humana, o amor é sempre a premissa insuperável dos nossos sofrimentos. Quanto mais se ama, mais se sofre".

Juan-David Nasio, psicanalista e psiquiatra argentino

sábado, 13 de dezembro de 2008

Tema da minissérie Capitu, belissima canção...

Para quem perguntou e está acompanhando a minissérie, eis os autores da canção-tema de Bentinho e Capitu. Eu fiquei apaixonada pela canção: Elephant Gun, da banda Beirut...O vídeo também é peculiar, sedutor, é muito lindo...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Vídeo narrado por Freud : Sobre a Psicanálise

Frases do dia

"Toda palavra tem sempre um mais além, sustenta muitas funções, envolve muitos sentidos. Atrás do que diz um discurso, há o que ele quer dizer e, atrás do que quer dizer, há ainda um outro querer dizer, e nada será nunca esgotado." J. Lacan

"São nas sensações confusas que trazemos ao nascer que a linguagem deve reencontrar suas fontes, caso ela queira preservar para si a força do nome".Pierre Fédida

sábado, 6 de dezembro de 2008

João Ubaldo Ribeiro

"Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos."(Vila Real)"

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Father and Daughter - Curta Metragem - Direção: Michael Dudok de Vit

domingo, 23 de novembro de 2008

curta metragem: Father and Daughter

http://www.youtube.com/watch?v=hb-0Py80cMY

Fime de : Michael Dudok de Wit

IV Encontro de Psicanálise - A Família em Questão

O IV Encontro de Psicanálise, realizado pelo
Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo e Clínica Dimensão
de Goiânia, nos dias 21 e 22 de novembro, na Capital Goiana

não foi meramente um encontro, mas um espaço de construções e de
trocas e que certamente deixou saudades, e o desejo de contribuir cada vez

mais para os avanços da Psicanálise, e porque não dizer, de nós enquanto humanos.

Obrigada a todos os Psicanalistas que estiveram em Goiânia.

Desejamos novos encontros...

Turma do curso sobre Masculinidade, ministrado pelo

Dr. Osvaldo De Vitto.

Psicanalistas Leonor Rufino e Ely Curi. Agradeço
por todos os esforços, para a realização do IV Encontro de Psicanálise:

A FAMÍLIA EM QUESTÃO
Agradeço
ao Dr. Osvaldo De Vitto, psiquiatra e

Psicanalista, membro do GTEP do Departamento

de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

Ministrou o curso sobre Masculinidade no Encontro de Psicanálise

de Goiânia


Agradecimentos a todos pela sensibilidade, pelas produções
e por terem transmitido, além de todo conhecimento Psicanalítico,
muita emoção nas falas e nos gestos.
Renata Udler Cromber, Cleide Monteiro, Helena Albuquerque,
Osvaldo De Vitto, Elcio Gonçalves, Fátima Milnitzky, Leonor Rufino e
Tiago Corbisier Matheus.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Wislawa Szymborska: Trecho de "O poeta e o mundo"

O mundo – o que quer que pensemos quando aterrorizados pela sua vastidão e pela nossa própria impotência, ou amargurados pela sua indiferença e pelo sofrimento individual de pessoas, animais e talvez até de plantas, pois o que garante que as plantas não sintam dor; o que quer que pensemos das extensões penetradas pelos raios de estrelas cercadas de planetas que tenhamos acabado de descobrir: de planetas já mortos? Ainda mortos? Simplesmente não sabemos; o que quer que pensemos desse teatro incomensurável para o qual temos bilhetes reservados, mas bilhetes cuja duração é ridiculamente curta, sendo cercada por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos deste mundo – ele é espantoso.Mas “espantoso” é um epíteto que oculta uma armadilha lógica. Afinal, ficamos espantados por coisas que desviam de alguma norma bem conhecida e universalmente aceita, de uma obviedade à qual nos acostumamos. Ora, o problema é que não há esse mundo óbvio. Nosso espanto existe por si e não se baseia na comparação com coisa nenhuma.É verdade que, na fala cotidiana, em que não paramos para pesar cada palavra, usamos frases como “o mundo cotidiano”, “a vida corriqueira”, “o curso normal das coisas”... Mas na língua da poesia, em que cada palavra é sopesada, nada é comum ou normal. Nem sequer uma pedra e nem sequer uma nuvem por cima. Nem sequer um dia e nem sequer uma noite depois. E sobretudo, nem sequer uma existência, seja de quem for, neste mundo.

De: SZYMBORSKA, Wislawa. "The poet and the world". Nobel lecture.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Poema - Haikai


Olhando nos olhos

que o lago reflete

Narciso se esquece

Eugénia Tabosa

O hai-kaiPoema originário do Japão, Bashô, o hai-kai, consta originalmente de 17sílabas em três versos:o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco.Quem primeiro introduziu o hai-kai .no .Brasil .foi Guilherme de Almeida,que definia essa .forma..como"uma.anotação.poética.e.sincera.de.um momento de elite".Transpondo-o para o português, em 1936 e, posteriormente, em 1947em Poesia Varia, acrescentou-lhe a rima.Em época mais recente, Paulo Leminski traz novamente o hai-kai, porém adaptando-o, ou seguindo uma tendência já em voga noBrasil (Olga Savary, Armando Catta Preta e outros) àestrutura do poema moderno, ou seja,sem a rima.


terça-feira, 4 de novembro de 2008

Psicanálise e Cinema

http://www.cinemaepsicanalise.com.br/cinema/


"FATHER AND DAUGHTER - curta metragem (Dudok de Wit)
"A VIDA DOS OUTROS" Direção:Florian Henckel von Donnersmarck
"CHEGA DE SAUDADE" Direção: Laís Bodanzky
"A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS" Direção: Isabel Coixet
"VIAGEM A DARJEELING" Direção: Wes Anderson
"DESEJO E REPARAÇÃO" Direção: Joe Wright
"O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS" Direção: Cao Hamburger
"AS HORAS" Direção: Stephen Daldry
"MATCH POINT - PONTO FINAL" Direção: Woody Allen
“MORANGOS SILVESTRES” Direção: Ernst Ingmar Bergman
“O CARTEIRO E O POETA” Direção: Michael Radford
“VOLVER” Direção: Pedro Almodóvar

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Poesia

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido

contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas

muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

Revista


Percurso é uma revista semestral de Psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, sem interrupção, desde 1988. Traz artigos originais, traduções, entrevistas com analistas importantes e uma substanciosa seção de resenhas. Com circulação nacional, Percurso aceita trabalhos provenientes de todo o país, independentemente de o autor ser membro do Departamento que a edita.

Instituto Sedes Sapientiae


Departamento de Psicanálise
Grupo de Transmissão e Estudos de Psicanálise

http://www.sedes.org.br/psicanalise.htm